Toda vez que surge um feriado no horizonte eu penso a mesma coisa: quero ir para Buenos Aires!! Isso não costumava ser verdade. Eu tinha sempre uma imagem de que Buenos Aires era para ser curtida exclusivamente no inverno, tirando os sobretudos do armário para dar uma volta na cidade mais européia da América Latina. Tomar um vinho em um restaurante com lareira, e se esquentar para valer ouvindo Carlos Gardel.

E isso é uma delícia mesmo. Buenos Aires tem a maior cara de inverno. Mas, descobri nas minhas últimas visitas, que lá é bom em qualquer época do ano! Já fui em dezembro, no auge do verão. O calor beira o insuportável, é verdade… mas é para isso que serve o sorvete de dulce de leche do Freddo. Para melhorar, as ruas ficam vazias (já que os porteños fogem da capital no calor), e as lojas, que já são baratas, dão descontos absolutamente imperdíveis.

Resumo da ópera: vá para Buenos Aires! Agora! Se você nunca foi, já passou da hora de conhecer essa nossa charmosa vizinha. Se já foi, vá de novo… são tantos os ângulos a serem explorados, que você terá assunto para muitas e muitas visitas.

Tenho de confessar que eu sou meio suspeita para falar neste assunto, já que meu avô é argentino e fui criada à base de muito alfajor. Mesmo assim, só fui a Buenos Aires pela primeira vez aos 14 anos, e foi arrebatador. Paixão das mais fulminantes e, tenho certeza, eterna, já que depois disso não parei de voltar e voltar muitas vezes mais. Vi a cidade passar pela crise, vi restaurantes clássicos e bares vazios, lojas fecharem… vi o movimento intenso de recuperação e de volta por cima. E, principalmente, vi que não importa a gravidade do quadro, os Argentinos continuam alegres, divertidos, bonitos, arrumados e, por incrível que possa parecer pela nossa rivalidade futebolística, loucos para nos receber em seu território.

Dicas
Se você está pensando em conhecer Buenos Aires, seja agora na páscoa ou em qualquer um dos próximos feriados, saiba que esse é o tempo ideal para o passeio: de três a quatro dias. Não dá para ver tudo, mas dá prá conhecer o suficiente, sentir o clima, morrer de amores e ficar com um bom gostinho de quero mais.

A minha primeira dica é: vale a pena comprar pacote! Os pacotes são bem baratos, incluem traslado do aeroporto para o hotel e, em alguns casos, city tour. A segunda dica: nem pense em alugar carro! Táxi em Buenos Aires é praticamente de graça, e não há forma melhor de conhecer a cidade do que caminhando.

Voltando ao city tour: depois de muitas idas a BsAs de forma totalmente independente, decidi que finalmente era hora de testar um desses típicos passeios. Não me levem a mal! Eu adoro esses roteiros completamente turísticos!! Pegar micro ônibus, ouvir o guia fazendo piadas bilíngues, observar o comportamento dos outros turistas, acho o máximo!! Mas como sempre estive por ali com “entendidos” do assunto ou com amigos argentinos, nunca tive muita oportunidade. Mas para tudo existe uma primeira vez.

O tour
O ônibus passou para me pegar no hotel na hora marcada, e eu, como boa capricorniana, já estava esperando no lobby há pelo menos 10 minutos. Pena que não posso dizer o mesmo de outros companheiros de passeio. Passamos em mais dois hotéis e a nossa simpática guia teve de descer e interfonar nos dois apartamentos.

Isso é um ponto negativo de tours coletivos, você depende da organização dos colegas. Ao mesmo tempo, esse comecinho é bom para um quebra gelo com quem já está no ônibus. Todo mundo já começa a se perguntar de onde vieram, o que estão achando da temperatura, e mais importante de tudo, trocar dicas sobre a cidade.

Com todo mundo a bordo, começamos a jornada. Primeiro, rodamos pela 9 de Julio que é (teoricamente) a avenida mais larga do mundo com 8 faixas de carros em cada lado e um obelisco gigante bem no meio. Alguns pontos dessa avenida lembram a Times Square de Nova York, com outdoors gigantes e luminosos. Os city tours costumam passar bem rapidinho por ali, mas este é o primeiro ponto que vale o repeteco: parta dali para uma caminhada pela calle (rua) Florida, paraíso de compras.

Nossa primeira parada foi na Plaza de Mayo, onde fica a Casa Rosada (sede da presidência), a Prefeitura de Buenos Aires e a Catedral Metropolitana (onde estão os restos mortais do herói nacional San Martin). É nessa praça que aconteceram as famosas manifestações das mães, que até hoje se reúnem ali todas as terças feiras com lenços na cabeça, clamando pelos filhos desaparecidos na ditadura. Outras manifestações ainda mais recentes também aconteceram ali, como as “paneladas”.

Tínhamos apenas 15 minutinhos para aproveitar essa região, que mal dá para conhecer toda a catedral. Portanto, volte aqui também com mais calma: tire muitas fotos do famoso balcão onde Evita Perón fazia suas aparições (no llores por mi, Argentina…), sente em um banquinho da praça para observar o movimento, e tome um café com media luna no Café Tortoni.

Seguimos e fomos para San Telmo, um dos bairros mais antigos e tradicionais da cidade. As ruas ainda são de paralelepípedos, os cafés e casas de tango mantêm as mesmas fachadas originais, e ali, de domingo acontece uma feira enorme de antiguidades na Praça Dorrego.

Próxima parada: La Boca, outro bairro tradicionalíssimo, colonizado por italianos, cheio de casas de tango, e lar do time de futebol mais popular da Argentina, o Boca Juniors. Passamos pela Bombonera (estádio do Boca), com seus painéis que contam a história do bairro. Ali fica o Museu da Paixão pelo Boca que não é ponto dos tours mas quem curte futebol não pode deixar de visitar! Paramos no Caminito, provavelmente a parte mais famosa da Boca, com suas casinhas coloridas, artistas vendendo pinturas, dançarinos de tango na rua… imperdível!! Tivemos até bastante tempo para rodar, cerca de meia hora, e realmente tem muita coisa para ver, entre as manifestações nas ruas, as galerias e as lojinhas de souvenires.

Rodamos mais um pouco no ônibus, passamos pelo porto da Boca, Puerto Madero e seguimos para Palermo, que é um bairro totalmente verde, com parques enormes e muita atividade ao ar livre!! Uma passada bem rápida e superficial antes de ser devolvida direitinho ao meu hotel.

Puerto Madero
Se eu puder chutar, tem um motivo para o city tour passar só de relance por Puerto Madero. Essa região não é de uma simples paradinha: merece uma grande visita. Passear por lá é um acontecimento em si. Para mim, Puerto Madero é um dos lugares mais maravilhosos de BsAs e do mundo! É um antigo porto da cidade que no começo da década de 90 foi completamente reformado e transformado em artigo de luxo da cidade. As antigas docas viraram lofts e escritórios na parte de cima, e na parte de baixo uma sequência de 70 restaurantes, cafés, sorveterias, lanchonetes, etc… tudo isso na beira do Rio da Prata.

Quem foi faz um tempo, vai perceber o quanto a área cresceu. No começo, a parte Leste (do outro lado do canal) era praticamente virgem… agora está lotada de prédios residenciais, tem um Hotel Hilton gigantesco, e uma ponte linda que liga os dois lados chamada Ponte da Mulher (foi inspirada por uma mulher dançando tango e trazida inteira pronta da Espanha).

Puerto Madero fica lotado de gente de todas as idades passeando, ou sentados por horas em um dos restaurantes, é uma delícia. Não deixe de comer em uma das churrascarias. A minha preferida é a La Caballeriza, uma das mais tradicionais parillas da Argentina, onde você come muito e barato! Ah, e claro, a sobremesa obrigatória, seja no inverno ou no verão, é o já citado helado do Freddo. Tem um ali do lado.

Fuja!
Buenos Aires é tudo isso e muito mais (voltem para vários outros posts!). São os shows de tango do El Viejo Almacén, é a emoção de cruzar o número 348 da Corrientes, é o Teatro Colón, são os alfajores Havana, compras nas Galerias Pacífico, é panqueca de doce de leite do restaurante Lola, é a arquitetura de belíssimos prédios e monumentos, é o túmulo de Evita Perón no cemitério da Recoleta.

Não adianta negar que a crise teve algumas influências na cidade. As ruas têm mais pedintes e camelôs, e com isso uma sujeira que antes era bem mais invisível. Quem mora lá diz que a segurança já não é mais a mesma, o desemprego aumenta a violência e as drogas, e isso todo mundo sabe. Mas ao mesmo tempo, as pessoas já se acostumaram à situação. Restaurantes e bares já ficam lotados novamente, ruas e praças movimentadas, e turistas do mundo inteiro que estão aproveitando os preços baixos.

E os argentinos têm um detalhe muito lindo que, na minha opinião, falta aos brasileiros: uma ânsia de preservação. Eles sabem a importância da cidade, das construções, da história. Se tem um pouco mais de lixo nas ruas é porque as ruas estão muito mais cheias e não porque as pessoas não estão nem aí. Enquanto nós (paulistanos) reclamamos de SP todos os dias enquanto jogamos nosso chiclete para fora da janela do carro, os porteños apreciam a cidade todos os dias, sabem que é a casa deles, e é também responsabilidade deles.

Outro dia li um artigo de uma mulher mostrando motivos para se fugir de Buenos Aires… eu também acho. Fuja, ou você pode ficar viciado!!! Porque com crise, sem crise, no frio, no calor, basta apenas uma colherada de dulce de leche para qualquer um ser flechado pelo cupido!

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